Exposição digital em ambientes de saúde: o ponto cego entre prontuários legados, dispositivos médicos e a cadeia de laboratórios

Exposição digital em ambientes de saúde: o ponto cego entre prontuários legados, dispositivos médicos e a cadeia de laboratórios

Um hospital não é, do ponto de vista de infraestrutura digital, um ambiente único e coeso. É uma colcha de retalhos tecnológica: sistemas de prontuário eletrônico implantados há mais de uma década, equipamentos médicos conectados à rede para monitoramento remoto, integrações com laboratórios terceirizados, plataformas de telemedicina, e conexões com operadoras de planos de saúde para faturamento e autorização de procedimentos.

Cada uma dessas peças foi adicionada em um momento diferente, por um fornecedor diferente, seguindo um padrão de segurança diferente. E na maioria das instituições de saúde, nenhuma área tem hoje um inventário centralizado e atualizado de tudo isso. O resultado é uma superfície de exposição que cresce continuamente, em um setor onde uma falha de segurança não significa apenas vazamento de dados, pode significar interrupção de atendimento em tempo real.

Um setor que lida com vidas, mas opera com infraestrutura fragmentada

A digitalização da saúde trouxe ganhos reais de agilidade e precisão: prontuários eletrônicos, telemedicina, sistemas hospitalares interligados. Mas essa modernização abriu uma porta que muitas instituições não fecharam adequadamente. Com sistemas cada vez mais conectados à internet, cresce também a exposição a ataques virtuais, e dados médicos deixaram de ser apenas documentos confidenciais para se tornarem ativos digitais valiosos, cobiçados por criminosos que veem nesses registros uma fonte de lucro e chantagem.

O volume de incidentes reflete essa exposição. No primeiro semestre de 2025, o setor de saúde brasileiro registrou 11.426 violações de segurança em seus sistemas, e embora nem todas tenham se convertido em ataques diretos, 97% foram consideradas reais, com cerca de 20% classificadas como de alta severidade. A análise aponta que a combinação entre infraestrutura hospitalar cada vez mais conectada e proteções digitais insuficientes vem gerando um cenário de risco crescente.

Sistemas legados: tecnologia de ontem protegendo dados de hoje

Um dos pontos cegos mais persistentes em ambientes de saúde é a permanência de sistemas legados em operação contínua, muitas vezes rodando sobre versões de software que já não recebem qualquer atualização de segurança. Não é incomum que equipamentos críticos de diagnóstico dependam de sistemas operacionais obsoletos para funcionar, simplesmente porque substituir o software significaria substituir o equipamento inteiro, um custo que poucas instituições conseguem absorver rapidamente.

Esse problema não é hipotético. O caso mais conhecido no Brasil envolveu o Hospital de Câncer de Barretos, atingido por uma variante do ransomware Petya que se propagou globalmente explorando justamente esse tipo de vulnerabilidade em sistemas Windows desatualizados. O ataque sequestrou o acesso aos dados das máquinas infectadas, exigindo resgate em bitcoin para liberar as informações.

A exposição não se limita a softwares antigos rodando sem suporte. Sistemas de imagem médica que utilizam o protocolo DICOM (usado para armazenar e transmitir exames como tomografias e ressonâncias) frequentemente ficam acessíveis diretamente pela internet, sem que isso seja percebido pela própria instituição. Uma análise da Kaspersky identificou o Brasil como o quarto país do mundo com mais equipamentos DICOM expostos e acessíveis publicamente, incluindo casos em que resultados de exames de imagem de pacientes reais apareciam disponíveis na rede, sem qualquer barreira de autenticação.

Dispositivos médicos conectados: quando a rede vira parte do tratamento

Bombas de infusão, monitores de sinais vitais, respiradores e servidores de imagem médica (PACS) deixaram de ser equipamentos isolados e passaram a operar como dispositivos interconectados na rede hospitalar . Essa conectividade é o que permite monitoramento remoto e integração de dados entre setores, mas também transforma cada um desses dispositivos em um ponto de entrada potencial.

Equipamentos como bombas de infusão, monitores de sinais vitais, respiradores e servidores PACS, essenciais para o funcionamento hospitalar, acabam se tornando alvos acessíveis a criminosos mesmo sem habilidades técnicas avançadas, bastando o uso de ferramentas públicas de busca como o Shodan para localizar dispositivos expostos diretamente à internet.

O impacto de um ataque que afeta esses dispositivos vai muito além de um incidente de TI convencional. Em um painel realizado durante o Healthcare Innovation Show 2025, executivos de segurança de grandes instituições de saúde brasileiras discutiram abertamente essa dimensão do problema. Hospitais vítimas de ransomware registram aumento de 30% na mortalidade, segundo dados citados no evento, com casos em que dispositivos médicos conectados ficaram indisponíveis durante o ataque, comprometendo diretamente monitoramentos e a administração de medicamentos a pacientes internados. O risco de uma bomba de infusão ou de um painel de monitoramento de sinais vitais estar exposto à internet não se resume ao atacante desligar o aparelho remotamente. O maior perigo reside no fato de que esses dispositivos compartilham a mesma rede interna de outros sistemas críticos do hospital. Uma vez que o cibercriminoso ganha acesso inicial explorando esse dispositivo vulnerável, ele o utiliza como "pivô" para realizar um movimento lateral, navegando de forma silenciosa pela rede interna até alcançar o servidor central de prontuários ou o sistema financeiro do hospital.

Quando o elo mais fraco é o laboratório terceirizado

Hospitais e clínicas não operam isoladamente: dependem de uma rede extensa de laboratórios parceiros, fornecedores de software de gestão e plataformas de telemedicina para funcionar no dia a dia. Cada uma dessas conexões representa, também, uma extensão da superfície de exposição da instituição principal, mesmo quando o ataque não acontece diretamente nos seus próprios sistemas.

Em setembro de 2025, o grupo de ransomware KillSec assumiu a autoria de um ataque contra a MedicSolution, fornecedora de softwares de gestão usados por dezenas de instituições médicas em serviços de agendamento, armazenamento de exames e prontuários na nuvem. Criminosos obtiveram mais de 34 GB de dados, somando quase 95 mil arquivos, incluindo exames laboratoriais, avaliações médicas, radiografias e imagens não editadas de pacientes, entre eles menores de idade. A investigação identificou arquivos vazados pertencentes a laboratórios e clínicas distintas que utilizavam a mesma plataforma terceirizada.

Esse padrão de ataque à cadeia de fornecedores de tecnologia é particularmente perigoso justamente porque permite atingir múltiplas organizações simultaneamente, explorando a confiança que cada instituição deposita em seus fornecedores, sem que essas instituições tenham qualquer visibilidade direta sobre a postura de segurança real desses parceiros.

Quando o ataque atinge a infraestrutura pública de saúde

A exposição não fica restrita a hospitais privados. Em dezembro de 2021, os sistemas do Ministério da Saúde, incluindo o ConecteSUS, responsável pela emissão do Certificado Nacional de Vacinação contra a Covid-19, e o e-SUS Notifica, usado para notificações de síndrome gripal, foram comprometidos em um ataque assumido pelo grupo Lapsus$. Os invasores deixaram mensagens informando que 50 TB de dados haviam sido copiados e excluídos, classificando o ataque como ransomware. O ConecteSUS ficou fora do ar por dias, deixando milhões de brasileiros temporariamente sem acesso aos próprios comprovantes de vacinação, em meio à gestão de uma pandemia ainda em curso.

O episódio ilustra como a exposição digital em saúde não afeta apenas a instituição atacada: pode comprometer o acesso de toda a população a serviços essenciais, com efeitos que se estendem muito além do ambiente técnico onde o incidente começou.

Por que dados de saúde são um alvo tão valioso

Diferente de um número de cartão de crédito, que pode ser cancelado e substituído em minutos, um registro médico contém informações permanentes: diagnósticos, históricos de tratamento, condições genéticas, informações familiares. Registros médicos podem valer até 50 vezes mais que dados bancários no mercado criminoso, justamente por permitirem fraudes de longo prazo, como reembolsos falsos junto a planos de saúde, compra de medicamentos controlados, criação de identidades fictícias e até extorsão direta baseada em diagnósticos sigilosos.

Esse valor elevado também alimenta um padrão mais recente identificado em ataques ao setor: a divulgação pública de vazamentos como tática deliberada de chantagem emocional e reputacional, pressionando as instituições a pagar resgates não apenas pela continuidade operacional, mas pelo temor da exposição pública de dados clínicos sensíveis de seus pacientes.

O problema raramente está na falta de tecnologia, está na falta de inventário

Praticamente nenhum dos casos relatados acima começou com uma falha sofisticada e inédita. Começaram com sistemas desatualizados que ninguém migrou, equipamentos médicos conectados que ninguém soube que estavam acessíveis pela internet, ou fornecedores terceirizados cuja postura de segurança nunca foi monitorada de forma contínua pela instituição contratante.

O ponto em comum entre esses cenários é a ausência de um inventário centralizado e atualizado da própria superfície de exposição. Diferente de uma rede corporativa convencional, um ambiente de saúde combina TI tradicional, equipamentos biomédicos, integrações com terceiros e infraestrutura legada em um único ecossistema, e a maioria das instituições não tem uma visão unificada sobre qual parte desse ecossistema está, neste momento, acessível pela internet, vulnerável a uma falha conhecida, ou conectada a um fornecedor cuja segurança nunca foi verificada.

Boas práticas para reduzir a exposição em ambientes de saúde

Mapeie continuamente todos os ativos conectados, não apenas os sistemas de TI tradicionais. Equipamentos médicos, servidores de imagem e sistemas de automação predial também fazem parte da superfície de ataque e raramente são incluídos em inventários convencionais de TI.

Trate sistemas legados como risco permanente, não como exceção temporária. Quando a substituição completa de um equipamento não é viável a curto prazo, isolamento de rede, segmentação e monitoramento compensatório são essenciais enquanto a migração não acontece.

Audite a postura de segurança de laboratórios, fornecedores de software e plataformas terceirizadas com a mesma seriedade aplicada aos sistemas internos. Como evidenciado pelo caso MedicSolution, um único fornecedor comprometido pode expor dados de múltiplas instituições simultaneamente.

Monitore exposição de dispositivos conectados à internet de forma proativa. Equipamentos descobertos por ferramentas públicas como o Shodan representam um risco real e detectável antes da exploração, não apenas depois dela.

Tenha um plano de continuidade assistencial específico para cenários de indisponibilidade de sistemas. Em saúde, a resposta a incidentes não pode se limitar à recuperação de dados: precisa garantir que o atendimento ao paciente continue mesmo com sistemas comprometidos.

Trate a cibersegurança como parte da segurança do paciente, não apenas como questão de TI. O aumento de mortalidade associado a ataques de ransomware em hospitais, citado por especialistas do setor, deixa claro que a exposição digital em saúde tem consequências clínicas diretas, não apenas operacionais ou reputacionais.

Como o QuimeraX atua nesse cenário

O módulo de EASM (External Attack Surface Management) do QuimeraX foi desenhado para resolver exatamente o problema central descrito neste artigo: a ausência de inventário centralizado em ambientes tecnologicamente fragmentados. Através de descoberta contínua de ativos, o Asset Hunter identifica sistemas, subdomínios e serviços expostos que nunca foram formalmente documentados, incluindo ambientes legados e integrações esquecidas, enquanto o módulo de Assets mapeia portas expostas e dispositivos acessíveis pela internet, o mesmo tipo de exposição que ferramentas como o Shodan revelam para qualquer pessoa com intenção maliciosa.

Para o risco que nasce fora do perímetro direto da instituição, como evidenciado pelo caso MedicSolution, o módulo de TPCRM (Gestão de Risco de Terceiros) monitora continuamente a exposição de laboratórios parceiros e fornecedores de software, enquanto o CTI (Cyber Threat Intelligence) identifica vazamentos de credenciais e menções a ameaças direcionadas ao setor de saúde antes que se tornem incidentes públicos.

O diferencial está em transformar a complexidade fragmentada de um ambiente hospitalar, normalmente o seu maior risco, em um inventário único, contínuo e priorizado por criticidade real.

Quer saber quanto da infraestrutura da sua instituição está hoje exposta sem que você saiba? Agende uma demonstração com o time do QuimeraX e descubra, na prática, o que o Asset Hunter encontra na superfície de ataque do seu ambiente de saúde.

Conclusão

A digitalização da saúde não é reversível, nem deveria ser: ela salva vidas todos os dias através de diagnósticos mais rápidos, tratamentos mais precisos e cuidado mais integrado. Mas essa mesma digitalização criou um ecossistema técnico fragmentado, onde prontuários legados, dispositivos médicos conectados e integrações com laboratórios e operadoras coexistem sem que nenhuma área tenha visibilidade unificada sobre tudo isso.

Os casos reais que marcaram o setor nos últimos anos, do Hospital de Câncer de Barretos ao ConecteSUS, da exposição de sistemas DICOM à cadeia de laboratórios afetada pela MedicSolution, têm uma origem comum: exposição que existia, mas que ninguém sabia que existia. Em um setor onde a consequência de uma falha pode ser medida em vidas, não apenas em prejuízo financeiro, fechar essa lacuna de visibilidade deixou de ser uma escolha técnica e se tornou uma responsabilidade clínica.